olhares (1998)

Olhares

Era caloiro, tudo era novo para mim…
A professora parecia querer assustar-nos com palavras duras. Mas isso pareceu-me normal no início das aulas.
Sentia-me só…
Olhei desconsoladamente em meu redor, na vã esperança de encontrar um rosto conhecido…
…Não.
A única coisa que me ligava aos outros, naquela sala enorme e gelada, era a humilhante pintura que discrimina quem é novo na escola.
Nem todos estavam pintados, por sinal.
Oh! A professora tinha razão!
A campainha tocou. Apressei-me a sair daquela sala gelada.
Foi então que reparei numa menina linda, tão baixinha, tão indefesa… Tinha um cabelo escuro, muito liso, tão lindo! Mas o que mais me fascinou foram os seus olhos. Desliguei-me do tempo, ocupado a admirar a infinita intensidade daqueles olhos.
Ela também correspondeu ao olhar.
Ah! Prazer, estrépito, grande demais para ser controlado…
O nosso olhar era tão profundo que ultrapassava as barreiras da carne e nos sugava a alma…
… Era como se estivéssemos ligados um ao outro por uma corrente devastadora que unia os nossos olhos.
Caminhou trémula em minha direcção e desviou o olhar.
Nesse momento descemos á terra e tornamo-nos humanos novamente.
- Olá! Parece que somos da mesma turma.
- Fixe!
Oh, Céus! Crucificai-me! Como fora capaz de num momento como este ter dito uma palavra tão… tão…
Ela continuou e fez qualquer referência à obra de arte que me adornava a cara.
Mas eu apenas sorri.
Estava demasiado abalado com o meu “fixe!” e com os seus olhos de princesa.
Ela foi-se embora. E só então reparei nas duas cruzes de batom que se destacavam na suavidade da sua face.
Fui para casa. Aqueles olhos não me saíam da cabeça.
Eram castanhos. Cor da vida, cor do céu, da lua e das estrelas, cor da minha paixão.
Os dias que se seguiram foram plenos de iniciativas da minha parte.
Qualquer assunto era motivo para iniciarmos uma longa viagem para bem longe da terra. Só eu e ela.
Entretanto fui conhecendo superficialmente o resto da turma… Mas nada tinha interesse além dela.
Tal como eu, ela não conhecia ninguém da turma… eu tive a terrível sorte de ser o primeiro.

O que mais me surpreendia era que á medida que o tempo ia passando, reparava que aquele lago de palavras e frases cativantes secava na presença de outros lábios que não os meus.
Sim…
… Era tímida. Quando nos juntávamos em grupo permanecia num silêncio isolador.
Cerca de dois meses depois, já senhor de seus segredos, tocara várias vezes a sua testa em beijos carinhosos.
Amizade? Amor?
Essa era a minha maior dúvida…
Tomar a iniciativa de lhe confessar toda a onda de tormentos que me abalava o coração ou sentir cada pedaço da sua sincera amizade.
Poderá existir sincera amizade entre um homem e uma mulher?
Não se tratava de coragem ou da falta dela.
Considerava-me namorado daquela que era a minha vida, só não havia o toque entre os nossos lábios, sinal da paixão que nos unia.
Seria justo por em risco esse privilégio que tão arduamente tinha conquistado, em troca do prazer de sentir o sabor dos seus beijos?
Sabia que depois de tão gigantesca confidência tudo iria mudar. Para o bem ou para o mal…
Preferi acomodar-me com o que possuía, deixando as coisas como estavam.
Mas cada vez que segurava as suas mãos, cada vez que a olhava nos olhos via o seu amor reflectido em todo o seu corpo.
Era essa certeza que me sufocava…
Foi numa sexta-feira cinzenta e chuvosa. Lembro-me como se fosse hoje.
Os seus olhos infinitamente belos e todo o seu ser, parecia adivinhar a confissão que iria fazer.
Agarrei-lhe nas mãos esquecendo as frases que estudara havia semanas e libertei-me das palavras que me prendiam o coração.
Fora muito prudente, não revelara todo o amor que sentia para o caso da resposta não ser agradável.
Reservara isso para mais tarde.
Pediu-me um tempo para pensar.
Concedi-lhe todo o tempo da minha não longa vida.
No sábado e no domingo não consegui deixar de pensar nela, só nela. O que estaria a sentir?
Não sei ao certo o que sentia, se alívio, se tensão. Teria que ser uma tensão mais forte do que o próprio significado da palavra. Pois não dormia, nem comia, nem nada do que partia de mim parecia certo.
Acabara de tomar a decisão mais difícil e importante da minha vida.
Na verdade esperava uma resposta imediata, mas a cabeça das mulheres é bastante complicada.
A segunda-feira acordou bela e coberta pelos raios de um sol muito claro. Típico das manhãs ensolaradas do nosso Inverno.
Encontrei-me com ela.
Estava mais linda do que alguma vez imaginara nos meus sonhos.
Olhou-me nos olhos, tal como no principio de tudo.
Das suas palavras apenas consegui interpretar três letras:
-Não.

Rafael Rodrigues, Viana do Castelo, Janeiro de 1998


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